| As Aventuras de Correia de Campos |
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| 02-Jul-2007 | |
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Decorria, no seu superlento discurso, o ano de 2007, prenhe de saudades do futuro. C. Campos era, ainda, o ministro da saúde da espécie dos “sui generis”. Num dia de Junho, já depois das festas dos Santos Populares, esses pequenos intervalos que Deus nos deu para enxugarmos as lágrimas, com alegrias e folias desmedidas, eis que o Dr. Campos nos presenteia como uma nova versão, bem ao seu estilo, corrigida e aumentada, da famosa história da ida ao médico e que a sabedoria popular registou assim: Zé dos Anzóis, um dos muitos hipocondríacos saudáveis, que a Classe dos Inventores de Doenças (vide “Inventores de Doenças” de Jörge Blech, p. 56), está a criar, em regime de sociedade, do século XXII, foi pontualmente, ao seu Médico de Família, pois, apesar de ser órfão de pai e mãe, além de solteirão convicto, não tem família, mas tem direito a um médico da dita. Encontrando, no regresso a casa, um vizinho tirocinante na arte do “hipocondrismo saudável”, a fazer o passeio pós-prandial, que curioso pelo saco que o Zé transportava, perguntou de chofre: que leva no saco, ó vizinho? São medicamentos, respondeu o Zé, acrescentando: Fui ao meu médico de família, que visito regularmente, para o ajudar, pois ele precisa de viver e se ninguém lá for, morre de fome; Passei pela farmácia, porque o farmacêutico, esse também precisa de viver, por isso comparticipo, no seu negócio, comprando-lhe os medicamentos que o meu MF me receitou; Quando chegava a casa costumava deitá-los fora, porque eu também preciso de viver, dizia o Zé muito senhor do seu papel, seguindo à risca os subidos conselhos da sua tribo. Diz “costumava” e, agora, já não costuma, perdeu o jeito? Não, vizinho, há outra moda, mais eficaz: o ministro da saúde apareceu há dias na televisão a dizer que devemos devolvê-los (os medicamentos, claro) à farmácia, porque se os deitarmos pelo esgoto abaixo podemos matar os peixinhos no mar do norte, para onde vão os nossos esgotos, através das correntes quentes que passam, ali na Foz do Douro. Segundo me disseram, o ministro sugeriu que se dessem as sobras, aos postos de recolha, pois as mais dispendiosas, vão ser aproveitadas para dar aos pobres, sem dinheiro para comprarem medicamentos. Assim, prolongado o tempo de uso, poderão participar do grupo dos hipocondríacos, sem gastarem dinheiro, que não têm, aliás. E os restantes? Ouvi dizer que, nos hospitais, já estão a aumentar-lhes o prazo de validade, pondo, como nos automóveis, mais um selo de garantia de um ano (de cada vez, não vá o diabo tecê-las); nas farmácias poderão fazer o mesmo, dado que a destruição de medicamentos, que, por não serem usados, pelo aparelho digestivo do homem, se transformaram em venenos letais, é perigosa e cara. Ora se forem parar à mão dos hipocondríacos, como o Zé, mas mais desfavorecidos do que ele, poupa-se nas despesas de destruição; poupam a vida de quem os não toma e alimentam a rede prestadora de cuidados médico medicamentosos, que também necessita de alimento para não fenecer, já não trazendo, à colação, o prestimoso contributo para o avanço da ciência relativa à área. Não se sabe por que andam os teóricos a debater a problemática da eutanásia. Quando havia a moda do chá da meia-noite, hora em que, aqueles que não morriam por não terem, onde caírem mortos, entregavam de volta, a alma emprestada pelo Deus Criador do Céu e da Terra, é porque não havia esta moda ultra-moderna da recolha do lixo farmacêutico, que o Dr. Correia de Campos, com a sua imaginação fértil e única, consegue destinar, com as vantagens, que, facilmente subentenderão, imaginações menos dotadas do que a dele. Dum só golpe, supera, pela vertente mais positiva, as caducas práticas do chá da meia-noite e as polémicas e intermináveis discussões da eutanásia: um medicamento estragado para pobres é, pelo menos, tão eficaz, como eram e ainda são, os pastéis fora de prazo de validade para consumo, que pasteleiros conscientes dos seus deveres de caridade cristã, mandam para as casas de acolhimento de rapazes da rua. Perante esta boa intenção do ministro da saúde (e de boas intenções está o inferno cheio o que nos faz recear que não tenha vaga, tão cedo), é preciso não perder a noção do humor, a fim de podermos ser capazes de transformar uma acção aparentemente má, numa outra genuinamente, boa. É uma questão de bom humor e boa vontade. Nós até sugerimos uma pequena dose, quando exequível, de música clássica, como fazem, agora, nos “tanatórios”, quando cremam os cadáveres. Não é a mesma coisa, mas quase e dava mais realismo à cena da entrega dos medicamentos. Com ministros assim ninguém tema a falta de segurança, em cima e debaixo da terra, sobretudo os pobre por quem demonstra ter uma atenção adequada, muito especial. |
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