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Tirar a sardinha do lume com a mão do gato... criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
23-Dec-2009
Para não se queimar, obviamente. Foi esta a sensação que tive, quando as colegas, algumas enfermeiras chefes de CS, me fizeram perguntas acerca da forma como estavam a empurrar as enfermeiras chefes para fora das suas funções.

O argumento é simples: candidatam-se a uma das já célebres UCC; fazem um projecto e nesse projecto tem de haver, num ponto qualquer, que a Equipa Regional de Acompanhamento (ERA), no seu subido entendimento considere, no qual fique amarrada a enfermeira chefe do Centro de Saúde, em mutação constante, segundo a imaginação fértil dessas criaturas. No caso em apreço a enfermeira chefe para descer à categoria de coordenadora de UCC tem de se dedicar as 35 horas semanais a essa coordenação e não lhe sobra nem mais um minuto para a chefia do Centro de Saúde, de cuja categoria (chefia do) é titular.

Nem o facto de o funcionamento das UCC estar previstos nas 24 horas do dia, levanta a mais leve suspeita de que as 35 horas semanais da chefe não garantem permanência total e constante nesse tempo todo. Aliás, nos hospitais que funcionam as horas todas, as chefias de enfermagem não são omnipresentes. Por este pormenor se vê que a ERA nem habilidade tem para o disfarce, o que ainda nos faz mais pena, tipo de dó.

Lembrem o que referimos há tempos, acerca do famigerado dr.Pisco, presidente da Associação Profissional dos Clínicos Gerais. Dizia ele, num seminário promovido na UC, onde estavam enfermeiros, em pós-graduação de discutível valor e interesse: «… só não sei que fazer das enfermeiras chefes», dizia o tal dr. Pisco eleito como missionário mor da unidade de missão.

É inventor e promotor de várias aberrações na área dos cuidados primários, todas elas tendentes a favorecer os interesses dos seus associados. Não é o único, mas o capitão. O curioso é que ninguém se escandaliza com isto, nem Correia de Campos que achava estranho que um enfermeiro director, de carreira, há 30 anos e presidente do SE, em simultâneo, fosse enfermeiro director de um hospital, pelo que até chegou a persegui-lo, ou a incentivar isso, pois já depois de deixar de ser ministro, despachou o seu abate ao efectivo do hospital, repetindo a proeza, em 2005, quando regressou ao ministério.

Onde entra a tal ERA?

Pelo que nos foi dado apreender, trata-se de um grupo de enfermeiros/as, muito obedientes à estratégia do dr.Pisco e da sua unidade de missão (ler associação pública de interesses dos clínicos gerais) submetidos a lavagem acelerada ao cérebro, para que não tenham consciência do triste papel que estão a fazer.

Directa ou indirectamente, lá anda o Secretário de Estado e da Saúde a levar a água ao seu moinho, pois não é por acaso que o norte do país tem o maior número dessas aberrantes USF, cuja vantagem palpável é encherem os bolsos dos médicos que as constituem, muitos dos quais pertenciam ao grupo dos médicos menos procuradores para médicos de família (analisar o seu percurso). Felizmente que começam a funcionar as UCC que como dissemos ontem, vão colmatar as brechas que as USF, essa quintessência “pisquica “ e seus fieis seguidores, cujo fim último é embolsar euros, com pouco esforço, deixando o trabalho para os outros das UCC.

Não se sabe onde é que os da ERA vão inventar esquemas para enredar os enfermeiros chefes legítimos, quando ainda está por definir uma boa parte da carreira de enfermagem, em lume brando para permitir toda esta série de patifarias, cometidas por ingénuos (ou talvez não) ignorantes (talvez sim), que conhecemos mal, porque fogem de nós como fugia a surda-muda, agora com outro estatuto, quando ia a Freamunde, e não só, intimidar os enfermeiros de que tinham de aderir à USF, para fingir emprego de alguns dos 11 médicos para 5 enfermeiros, que não tinham lugar na “clinicagem” privada da área. Uma vergonha, pois não havia dos ditos clientes sem abrigo, nem atrasos  dos que estão na base fictícia da criação das USF. 

Enquanto a carreira de Enfermagem não tiver o seguimento que tem que ter, não aconselhamos os enfermeiros chefes dos CS a deixarem de cumprir as suas funções, nomeadamente.

Os médicos abocanharam, qual jibóia faminta  a administração de toda a saúde, de que os CS não escaparam, tentaram-no através de sucessivas “correcções” de leis destinadas aos centros de saúde, até conseguirem o estado de coisas actual.

Mas convém esclarecer que, enquanto administradores não têm capacidade para absorver ou limitar as competências dos enfermeiros, chefes ou não chefes.

No lugar desses administradores podiam estar outros profissionais não médicos, apesar de abusivamente em muitos casos o dr. Pisco reservar os exclusivo para os colegas, não fosse o diabo tecê-las estragando-lhe o negócio.

Imagine-se que nalguns desses cargos de administração estariam enfermeiros. A reacção que os médicos teriam em tais circunstâncias é exactamente a mesma que devemos ter como enfermeiros, pois os princípios enformadores legais de ambas as carreiras são simétricos. A nossa especificidade, tal como a deles, não se esgota nem confunde com meros actos de administração/gestão da coisa.

Compete ao enfermeiro chefe (sempre há-de competir) elaborar o plano de trabalho dele e dos seus, com vista à avaliação do desempenho da equipa dispersa por uma ou 20 unidades de cuidados prestadoras.

A administração da coisa pode pedir resultados, porém a execução das acções dos enfermeiros, enquanto profissionais autónomos e independentes, no mínimo, como os médicos é da exclusiva responsabilidade da chefia directa.

Não obstante a capacidade intelectiva do dr. Pisco não o ajudar a encontrar uma solução para o obstáculo da sua estratégia, que as enfermeiras chefes embaraçam, por isso não sabe o que fazer delas, o seu papel é fulcral na execução de qualidade dos cuidados de enfermagem. Só quem pretenda abastardar, anarquizando a prestação dos enfermeiros, que é a mais significativa, pois o papel do médico está circunscrito aos papeis, é que não sabe que fazer das chefias.

Frequentadores de cursinhos de “Taylorismo serôdio”, numa época da APO e da Contingência, convencidos de que aprenderam tudo sobre administração, tentando arrastar para a administração a mesma intocabilidade que conseguem, no povo, com a actividade médica, fazem o mesmo papel, enquanto administradores mal preparados que desempenhou D. Quixote de La Mancha, ao actuar à margem do paradigma ou episteme vigente.

Para não faltar nada os delegados sindicais da concorrência, em vez de ajudarem as pessoas a defenderem-se, intimidam, insinuam, estupidificam, projectando-se numa área e matéria que não dominam, eis um mau uso das liberdades sindicais que não foram concebidas para meter medo às pessoas, mas para as encorajarem a defender a todo o custo os seus legítimos direitos. Ora chefiar o pessoal de enfermagem de um CS é não só um direito da enfermeira chefe legítima, como um dever.

Não precisamos de avisar que quem se atravessar na livre expressão da genuinidade destes conceitos que enformam a teoria e a prática de enfermagem, terão de se haver com as nossas iniciativas de defesa.

Na era da “siglomanias” deixamos um aviso sério à ERA de que não se meta onde não tem nem competências e muito menos conhecimentos, porque não têm poderes para alterar o que está legislado. Não se deve a ERA espantar que contrariemos algumas das suas “baboseiras” que se se nos fosse dado escolher, gostaríamos que fossem outros a babá-las, os tais que usam a mão do gato par tirarem a sardinha do lume sem queimarem as suas mãos.

Enquanto não conseguiram os seus objectivos os médicos foram esquecendo ou fingindo esquecer as leis que não se orientavam segundo os seus objectivos. Nada nem ninguém pode impedir que estes “bons” exemplos sejam seguidos pelos enfermeiros, sobretudo sendo eles os principais obreiros da assistência sanitária primária ou básica, como ficou patente nos discursos de inauguração das primeiras 14 UCC, que invejamos, porque não diríamos mais bem o que foi dito, no sentido do que sempre temos defendido para os enfermeiros, que têm perdido demasiado tempo a engalanar, com o seu esforço e saber o “papel secundário” do médico neste segmento da saúde, que até tem passado por principal, num país onde foi proibido falar de enfermeiros.

Um bom serviço prestado à Classe de Enfermagem seria essas mãos de gato abandonarem esse inexplicável papel. Não sabemos e o gosto pelo penacho o permite.

Não esperem que baixemos as armas numa luta em que temos absoluta certeza de estarmos dentro da razão e da força que a enforma.

Uma informação útil é de que já temos disponível a edição especial do livro “Os inventores das doenças” que vai dar um grande impulso na compreensão de certos fenómenos de interesses de contornos mal definidos. É uma reflexão a não perder, na senda do que defendemos desde sempre.

Cordiais Saudações Sindicais,
O Presidente do SE — José Azevedo

 
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