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As famigeradas listas de espera... criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
28-Dec-2009
SIGIC é uma das muitas siglas do reino da “siglamania” e quer dizer, para quem ainda não soubesse: Sistema Integrado de Gestão dos Inscritos para Cirurgia.

Começando pelas duas palavras – sistema integrado – não estão muito bem casadas, pois sistema já é, só por si, uma integração de vários elementos, com entradas (imputs) e saídas (outputs) a passarem por uma caixa preta (black box). Mas não é este o cerne desta questão.

Com efeito, o Secretário de Estado e da Saúde, Manuel Pizarro, numa tentativa de mostrar serviço, está a utilizar as potencialidades, que os milhões de euros gastos em informática pelo Ministério da Saúde propiciam, varrendo o lixo para debaixo do tapete, como soe dizer-se.

Este sistema é uma das vergonhas do SNS, cuja existência é propositada, como arranjo dos vencimentos dos médicos cirurgiões, que se sentem mal pagos, pelo trabalho que fazem, nas empresas públicas, vulgo hospitais do Estado; antigamente este papel cabia aos hospitais das misericórdias. Era por este pormenor, aparentemente insignificante, pois só alguns coleccionadores de raridades, reparam nele, que o dito Secretário de Estado devia começar. Aí, qual núcleo duro da questão, é que ele ganhava o direito a ficar na história, se conseguisse demover os colegas das greves de zelo, não decretadas, quiçá do conhecimento e assentimento do dito governante, como uma das causas, se não a principal, que promovem atrasos, que resultam em listas de espera, que depois o SIGIC vai resolver, fora ou dentro das horas de serviço, consoante as administrações têm administradores não médicos com algum sentido de responsabilidade e simulam alguma disciplina interna.

A técnica é muito conhecida, nos politicamente correctos: ficciona-se um problema e depois adequa-se-lhe a solução. Contudo, no SIGIC, inventa-se primeiramente a solução e só depois se vai criando o  problema.

Vamos partir do pressuposto que a selecção de candidatos a cirurgia assenta em diagnósticos correctos e honestos, sem estimularem o “hipocondrismo” que outras instâncias da medicina promovem, entre os saudáveis. Sabe-se quantas amígdalas, essas sentinelas avançadas da invasão microbiana da cabeça, foram extraídas, desprotegendo irremediavelmente as defesas; o mesmo se podia dizer dos apêndices e, hoje, da extracção das vesículas por “espreitoscopia”, método moderno, treinado em gente pobre, nos hospitais públicos, (cada vez mais sucedâneos dos antigos hospitais das misericórdias), para usar no serviço privado, em quem pode pagar e não aguenta o peso da ideia de continuar com a vesícula, quando está na moda e é chique tirar-se. Há quem pague com a vida esta aventura. 

Seguidamente, devia informar quantos cirurgiões tem cada hospital, pagos pelo erário público e quantas intervenções são capazes de fazer num dia, servindo de bitola para esse dia de trabalho normal do cirurgião, o ritmo de trabalho, do mesmo, nos SIGICs. Assim é que o Secretário de Estado e da Saúde mostrava estar a fazer uma coisa diferente e não a encher páginas de jornais, pagos, indirectamente, em anúncios de gripe A, com mais do mesmo, fingindo um movimento do faz-que-anda-mas-não-anda.

Sem grandes probabilidades de falhar os cálculos, não havia necessidade de produzir listas de espera, esse fenómeno da última década, para ganhar mais uns milhares de euros.

Mas já que ninguém põe cobro a este abuso, seria mais fácil pagar mais uns quantos euros aos cirurgiões, por cada intervenção feita, desde que não tivessem lista de espera. Chama-se a isto inverter a lógica da coisa, método usado, aliás, por C. Gulbenkian, que só pagava ao seu médico de família, nos dias em que tinha saúde.

Quantas distâncias a percorrer, no sistema actual, aumentadas propositadamente para alimentar o negócio, se reduziam a valores mínimos. Só havia vantagens para o doente e suas expectativas, e o Estado também não pagava mais do que já paga, através do contributo para o SIGIC, que na mais descarada hipocrisia, transforma em complicação natural, um artifício para melhorar os salários.

A redução de tempos e movimentos, com a autenticidade das situações a requererem mesmo cirurgia, revertem para o doente. Claro está que o ideal era não haver impasses para produzir listas de espera, actuando os enfermeiros, agora, cada dia mais advogados dos doentes, em conformidade com essa verdade das situações, impondo respeito pelo doente, na qualidade de advogado privilegiado, que é.

Da aberração do fabrico das listas de espera o Secretário de Estado e da Saúde, nada diz; passa adiante, para se concentrar em demonstrar interesse no que é secundário. É uma coisa tão evidente que ninguém se apercebe que é mesmo isso.  Um ilusionista age do mesmo modo.

Admitir o fenómeno das listas de espera, como uma inevitabilidade é ocultar a referida greve de zelo, que as fabrica. Há mais lealdade se se atribuir o quantitativo dos SIGIC, como incentivo, para quem não fabrica listas de espera. Uma equivalência hospitalar aos €4370/mês que se incentivam aos Clínicos Gerais das USF, para fazerem o que já está feito!

O PIO (Programa de Intervenção Ocular) é uma coisa semelhante. Aqui a dificuldade é encontrar listas de espera, porque os clientes que vão à consulta não deixam rasto, em lista organizada.

Mostrar eficácia na constatação e sistematização duma anomalia, transformada em fatalidade (as listas de espera) qualquer amanuense seria capaz de fazer e mais bem que o SEAS; o que se espera de um governante é a ambição de atacar os problemas pelas causas, como acima sugerimos: Reduzem-se os tempos mortos, que fazem desesperar os doentes, ao ponto de alguns se curarem de tanta espera; não se prejudica a legítima ambição de os médicos cirurgiões, quererem melhores salários, eternizando o antigo paradigma dos hospitais das misericórdias; o Estado não paga mais por este método, mais realista, menos hipócrita, ao fazer coincidir o artificioso SIGIC, com a necessidade da intervenção.

Calouste Gulbenkian não pagava ao seu médico pessoal os dias de fracasso, em que este o deixava adoecer; só usufruía de salário quando Gulbenkian gozava de boa saúde.


Lá bem no âmago da questão até se podem depurar os diagnósticos, descontando na mesada os que forem falsos alarmes. É esta a lógica do raciocínio de Gulbenkian.


Cordiais Saudações Sindicais,
O Presidente da Direcção — José Azevedo

 
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