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01-Feb-2010
Foi um despertar lento, mas demonstra que, para tudo, há um limite e o dos Enfermeiros foi atingido.

Valeu a pena dar a conhecer a greve de 1976 aos mais jovens Enfermeiros. Tal como hoje, também nessa altura os pais dos actuais comentadores, diziam que os Enfermeiros não iam ser atendidos, porque estavam em contra-ciclo.

Assim como hoje, já tinham fechado as portas dos cofres, satisfeitas as exigências dos mais favorecidos.

Ontem, como hoje, o que nos assiste é a altissonante força da razão. E essa, nada nem alguém  conseguem detê-la.

Durante muito, muito tempo, os Enfermeiros foram sujeitos às provas da mais vil desconsideração da pessoa e do seu trabalho. Os autores desta estratégia calcularam mal a capacidade de resistência e a Alma da Enfermagem. E cometeram muitos exageros, provavelmente acreditando na eficácia de ameaças, de perder o emprego e outras coisas, cada vez menos valiosas, até se baixar ao aviltante vencimento menor do que o de empregada doméstica.

Sem nada a perder, a Classe consciencializou-se de que é chegada a hora do tudo ou nada; do agora ou nunca. A reedição de 1976, a gloriosa greve, que mudou a sorte da Enfermagem, passou a palavra de ordem, na manifestação.

A determinação com que os Enfermeiros desfilaram, no dia 29 de Janeiro de 2010, ligando aos Ministérios da Saúde e das Finanças, foi um evento que nem os mais optimistas estariam a prever. E nós somos optimistas; muito optimistas!

A mesma Ministra da Saúde, que propicia haver quem passe a ganhar, a pedido, em dois dias, o que ganhava em 30; que ganhe numa hora o que um enfermeiro ganha numa semana, é a que esquece que está a lidar com níveis simétricos de responsabilidade e que, finalmente, os Enfermeiros intuíram essas diferenças salariais, para níveis correspondentes de responsabilidade e concluíram que, só a determinação, na luta, vai permitir atingir os objectivos traçados pela FENSE, onde o dinheiro é uma parte substancial, mas não a única e, porventura nem a mais importante, do muito que há a negociar e que a Ministra entregou a negociadores impreparados, para perceberem as normas legais que exigimos, correspondentes às de outros, incluídos nos mesmos princípios enformadores de carreiras de corpos especiais, mas que têm sido tratados como "mais especiais"... Reclamamos tratamento igual.

 Não lhe ficaria nada mal que tratasse com mais respeito e bom senso os colegas de trabalho, cuja eficácia não pode desconhecer. Como o não tem feito, assim como o Secretário ...e da Saúde, sobre eles impende a agravante de não poderem ignorar o valor da licenciatura de Enfermagem.

Enquanto pôde, o Primeiro-Ministro, em debate na Assembleia da República fingiu ignorar a luta dos Enfermeiros. Instado a responder apelou ao bom senso dos Enfermeiros; que põe o bem nacional, geral, acima dos interesses particulares de corporação. Espera o fim da luta para sentar à mesa das negociações os Sindicatos.

A ideia que lhe fizeram da corporação Enfermagem está profundamente errada. Até aqui, foram outros a falarem pela nossa corporação especial, de nível máximo de complexidade, de grau máximo de utilidade pública (atender as justíssimas exigências dos Enfermeiros é que é servir bem a República); de risco máximo de contágio físico e, sobretudo psíquico, dada a proximidade da nossa corporação especial, de quem sofre, dando-lhe mais vida anos e mais anos à vida.

Criar condições de vida e de trabalho aos Enfermeiros é apostar no "vale mais prevenir do que remediar", exactamente o oposto do que a sua Ministra da Saúde está a fazer: falar exaustivamente da doença até que ela apareça nem que seja somente na cabeça das pessoas.

Finalmente, deixo uma palavra de agradecimento aos sócios que saíram do marasmo do "esperar para ver" e aderiram à greve e saltaram para a rua, dando largas ao seu insustentável descontentamento. E arrasaram tudo, em tropel magnífico e vivificador, manifestando aos boquiabertos a vitalidade da Profissão.

O Governo vai ter de aprender muita coisa acerca dos Enfermeiros que, até aqui, tem desconhecido ou fingido desconhecer.

O que está em causa, não é uma reivindicação extemporânea de corporação; é, sobretudo, a satisfação de carências que erros sobre erros foram acumulando e, até põem em causa, a sobrevivência do SNS, pois são os Enfermeiros que a garantem, essencialmente.

O Primeiro-Ministro, que tanto gosta de se comparar com outros, no que se refere aos Enfermeiros tem sido o único, dos países da UE, a desbaratar recursos humanos tão necessários e úteis, como os Enfermeiros. A asneira tem sido a sua política e da sua "ministeriagem", quanto aos deveres de Estado a ter com os Enfermeiros.

A forma como tem mandado tratar os Enfermeiros, em negociações longas e improdutivas, porque se destinam ao impasse, foi o que levou os Enfermeiros ao bom senso de se manifestarem, quer em greve de adesão maciça, rondando os 90%, quer em marchas manumentais.

Ao Povo, em geral, e ao Governo, em particular, deixamos este aviso solene e de bom senso, pois é impensável a insensatez, na Enfermagem. O que tem tolhido os Enfermeiros, numa reacção lenta, tem sido, exactamente a falta de bom senso, na defesa dos interesses particulares justíssimos (pagar a hora de trabalho do Enfermeiro a €5 não é senso, nem bom nem mau; é insensato) é investir no senso e bens comuns, pois Enfermeiros descontentes não são um bem para a saúde pública.

Só quem não conhece a história da greve de 1976, aliás, com o livro disponível no SE, que teve a iniciativa de coligir, em texto, o essencial dessa luta gloriosa, pode pensar que esgotámos as formas de luta.

Não se iludam; se não formos tidos na devida conta pelo Governo e não nos forem criadas as condições de negociarmos, seriamente, o que nos falta negociar, que é muito mais do que o documento incaracterístico (DL 248/2009), que levou o Secretário... e da Saúde a dizer, em privado, aos militantes socialistas; "aos enfermeiros, já os comi" (que falta de nível e de vocabulário, num governante!), temos outras formas de luta que podemos usar, bem mais demolidoras do que as constantes deste aviso solene.

Aos Partidos Políticos, cônscios das suas responsabilidades, que manifestaram o seu apoio à nossa luta, através do debate, na AR, deixamos um agradecimento, tão grande quanto o nosso espanto aos que não se manifestaram, dando provas de antipatia pela nossa razão e desprezo pela nossa causa justa. Se não estivessem a olhar só com um olho, ainda por cima vesgo, a Saúde, em Portugal, os Enfermeiros não estavam nem teriam chegado à situação actual. Também  a estes agradecemos o seu eloquente e significativo silêncio ensurdecedor.

A hora é de luta para apoiar as Direcções Sindicais em negociações sérias e justas.

Cordiais Saudações Sindicais,
O Presidente do SE - José Azevedo

 
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