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Portimão...Urgências só com um médico. criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
29-Jun-2010

“…é justificada como uma forma de contenção para redução de despesas em horas extraordinárias”.

“A ordem que não é motivada por falta de médicos, mas pela vontade de cortar nas despesas, está a criar um verdadeiro terramoto” diz o i na edição de 26 de Junho e acrescenta – “o SIM e a OM já manifestaram o seu veemente protesto, junto da Ministra da Saúde (também médica, tudo médico). E usam palavras como irresponsabilidade, gravidade, desrespeito e violação das recomendações de qualidade e segurança no atendimento aos doentes para descrever esta decisão.

“A ordem que não é motivada por falta de médicos, mas pela vontade de cortar nas despesas, está a criar um verdadeiro terramoto” diz o i na edição de 26 de Junho e acrescenta – “o SIM e a OM já manifestaram o seu veemente protesto, junto da Ministra da Saúde (também médica, tudo médico). E usam palavras como irresponsabilidade, gravidade, desrespeito e violação das recomendações de qualidade e segurança no atendimento aos doentes para descrever esta decisão.

Com as férias o Algarve aumenta a sua população, por isso a medida torna as urgências praticamente inoperacionais. É que, em cirurgia, ortopedia e medicina geral, um médico a trabalhar sozinho nem sequer pode operar um doente urgente, que lhe chegue às mãos. A urgência de Portimão tem a categoria médico-cirúrgica – um nível avançado de diferenciação, a seguir às urgências básicas. E ter apenas um médico de serviço viola os requisitos mínimos definidos para estes serviços……Tendo em conta que está em risco a assistência condigna aos doentes, o SIM deu instruções aos clínicos do hospital para que se abstenham de actos específicos sem que as equipas cumpram o determinado técnica e legalmente. E por isso os médicos são aconselhados a transferir todos os doentes que cheguem ao hospital a partir de 1 de Julho (...)

Este pedaço de prosa é o que podemos classificar de transição das vacas gordas para as magras.

Mas tem mais curiosidades. Parece que só os médicos é que estão de serviço e somente eles condicionam a qualidade e segurança dos cuidados. Que raio de mania que esta gente tem de chamar a si tudo, mesmo o que diz respeito aos enfermeiros, que fingem ignorar para imporem a lei do mais forte, que acaba por o não ser, pois tem de recorrer à sabotagem para que reparem nele e classifiquem como tal.

Parecem o São Paulo, com os devidos e solenes respeitos a explicar aos atenienses politeístas, de cima do rochedo, o Deus único e a SS Trindade. Afinal é um ou são três, interrogavam os atenienses.

Também, aqui, em Portimão não se fica a entender muito bem se o médico de clínica geral, o ortopedista e o cirurgião são 3 em 1 ou 1+1+1.

Nos enfermeiros estão sempre a lembrar que o especialista também é generalista, por analogia, pensamos, com aquela licenciatura em medicina e cirurgia que antes de ser especialidade é medicina e cirurgia geral. Se assim é, há qualquer coisa de essencial que está mal explicada.

Há por aí um cínico (escola ética que procura imitar o ladrar dos cães de onde extrai o nome “cínico”) que já disse que a crise é um mal que veio por bem para corrigir muitos desvios que de outra forma não seria possível corrigir.

Vale a pena divagar um pouco sobre o escândalo que é a exploração que os médicos praticam no trabalho em serviços de urgências. Fica-se a saber, em desespero de cortes que o mais importante não é a assistência a quem precisa, mas a remuneração do clínico, 3 em 1 ou 1 em 3. Por isso já que não se podem atender todos a OM e SIM (falta um) impõe: não se atende nenhum. Transfiram-se todos.

Mais uma vez, que não vai ser a última, referimos que na Austrália, cuja crise desconhecemos é norma as urgências não terem médicos, em presença física. São os enfermeiros que executam os protocolos na recepção dos sinistrados. Cumprindo o protocolo de cada situação é contactado o médico que tem 30 a 60 minutos para comparecer e fazer a sua parte.

Quem recebe e executa os mesmos protocolos, não escritos, nas urgências portuguesas, são, também cá, os enfermeiros, simplesmente isto não é reconhecido, nem pelos próprios enfermeiros que se esquecem de chamar a si a sua quota-parte na assistência, deixando aos egocentristas, a totalidade dos louros da contenda. 

De há muito se nota uma prerrogativa inadequada na carreira médica da área hospitalar, que tem a ver com o horário da mesma se cingir ao período compreendido entre as 8h e as 20h, de 2ª a 6ª feira, inclusive.

Além de inadequada, é escandalosamente injusta, se comparada com outros profissionais tão filhos de Deus, como os médicos, nomeadamente os enfermeiros, cuja semana de trabalho, também ela destinada, como a dos médicos a dar cobertura às 24 horas de cada dia, de todos os dias. Vai de 2ª-feira a Domingo.

Como a dos médicos vai de 2ª a 6ª feira, todo o trabalho que vai para lá destes dias e destas horas é extraordinário e remunerado extraordinariamente, segundo as verbas correspondentes a trabalho extraordinário nocturno e em Sábados, Domingos e Feriados.

Há uma consequência aberrante; quantos mais médicos estiverem de serviço e pertencerem aos quadros e mapas de pessoal maior é o volume de horas extraordinárias e incómodas.

Enquanto nos enfermeiros (ver INEM) as horas extras são para suprir as carências de efectivos, nos médicos, o número de efectivos, geralmente acima das necessidades reais e concretas, aumenta proporcionalmente o número de horas extra em vez de as diminuir.

Em justiça comparada; que país é este que perpetua estas aberrações?

Aos enfermeiros é prática pagar as horas extra com folgas de compensação, que saem do esforço dos colegas, que os substituem para gozarem a folga em vez de pagamento em dinheiro.

Aos médicos permitem-se esquemas que multiplicam as remunerações de forma escandalosa e imerecida. Isto tem de ser corrigido, não só em Portimão como no resto do país.

E já que os governos que temos tido não tiveram, ainda, a coragem de corrigir estes escândalos, teremos de ser nós, enfermeiros a adoptar medidas correctoras, sem desfalecimento e com inteligência normal, seguindo os exemplos do SIM e da OM, em igualdade de circunstâncias, logo com as necessárias adptações.

É profundamente injusto para os restantes profissionais que um só grupo, que se julga a si próprio o mais forte e insubstituível, absorva 85% da massa salarial destinada aos profissionais de saúde. É tanto mais injusto, quanto é certo que o seu trabalho não tem 85% das tarefas realizadas, nem a importância e significância exclusivas.

As abordagens que os profissionais de saúde fazem às situações de doença, são igualmente válidas e próprias. Um cirurgião que opera um doente numa ou duas horas determina muitas horas de cuidados de enfermagem e não é a presença mais ou menos utilitária e oportunista, por desnecessária, do médico, em nome da segurança mais ou menos fictícia, que evita os cuidados que os enfermeiros prestam, daí o não terem tempo para dormir, quando estão de serviço, como acontece com os esquemas médicos. Tudo em nome doutra manobra, não rara, que é ganharem num dia o tempo duma semana, a pretexto de um acompanhamento do doente, que não é exclusivo nem constante.

A injustiça que o governo está a protagonizar nos enfermeiros, não lhes reconhecendo o mérito para aumentarem os rendimentos de outros, mormente os médicos, que sem os enfermeiros são zeros, vai servir, tal como a crise, para corrigir, de vez as diferenças abismais em termos de salários, entre os profissionais.

Como diria um cínico: abençoada injustiça que vai servir para fazer justiça, requalificando o mérito dos vários licenciados da área da saúde.

Mais do que culparem este ou outro Sindicato, dos que estão do lado dos enfermeiros na imposição dos seus direitos e interesses laborais e remuneratórios equivalentes, os colegas devem estar atentos ao que fazem e fazem os outros; ao que auferem pelo seu trabalho e auferem os outros, tudo isto em igualdade de circunstâncias.

A percentagem dos colegas arrebanhados para explorarem os colegas tende a diminuir, em tamanho e significado, pois vão encontrando obstáculos naturais que os levam a abdicar de opções incorrectas. Se os crentes os encomendarem nas suas preces e os não crentes os excluírem do seu seio, a correcção é mais rápida e eficaz.

Cordiais Saudações Sindicais,
O Presidente da Direcção — José Azevedo

 
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