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A globalização e as greves na Ásia. criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
23-Aug-2010

A organização sindical surge, normalmente sob a pressão dos exploradores de mão-de-obra barata. Infelizmente, os trabalhadores levam mais tempo a reagir e a libertarem-se dos inúmeros estratagemas da estratégia que os exploradores utilizam.

Um dos quais se orienta no sentido de desacreditar os sindicatos, junto dos trabalhadores e outro, complementar daquele, é o de intimidar os trabalhadores que se aproximam do sindicato que os representa, adiando, tanto quanto possível, os efeitos benéficos para os explorados, que lhes advêm da acção sindical, o último e principal reduto defensivo dos seus interesses.

Os glutões donos do dinheiro baralham e dão as cartas como querem e entendem.

De há muito que a dimensão social desapareceu das empresas, sobretudo das de grande porte.

E o dinheiro também. Levaram-no para países como a China país dos “filhos únicos”, por imposição do governo, onde há um manancial de mão-de-obra barata, como os “camas quentes”. Porém a era do trabalho excessivamente barato está a chegar ao fim, como diz Artur Kroeber, um entendido em assuntos destes, naquele país imenso.

O desemprego ronda os 4%, atingindo, sobretudo os mais velhos, como cá.

A geração dos anos 80, que não conheceu o maoismo, mas somente o crescimento contínuo, é muito ambiciosa e tem elevadas expectativas. Começam a usar as greves, forçando os sindicatos ou o sindicato oficial, no caso da China, a reagir. Por isso nos meses anteriores uma onda de greves começou a desafiar a produção das grandes empresas, instaladas no sul, pois orientou-se para elas. Os casos mais emblemáticos são as greves da Honda, com paralisações em vários pontos e a Foxconn, fábrica de electrónica, famigerada pela vaga de suicídios de jovens operários. Fabrica o IPhone da Apple, os telemóveis da Nókia, computadores da HP; emprega cerca de 800 mil trabalhadores.

A Honda subiu 24% os salários e a Foxconn 66%. Daqui se infere que o sindicato obriga, está a obrigar, até na China, através das greves, a aumentar significativamente os salários. Ora as empresas que foram ao chamariz dos baixos salários e do excesso de mão-de-obra jovem e barata vão ter de mudar de poiso. Começam a voltar ao ponto de partida, agora pela mão dos chineses ricos ou enriquecidos. Estão a seguir o exemplo do Japão.

O governo chinês já percebeu que as greves são o acelerador da modernização do país, por isso as não reprimem, pois servem para impedir a exploração dos seus trabalhadores. Tenta controlar o descontentamento para equilibrar a capacidade negociadora do sindicato oficial com as reivindicações de aumentos salariais. Se 1/5 dos trabalhadores de uma empresa pedir a abertura de negociações o Sindicato oficial é obrigado a promover a eleição de uma comissão negociadora de trabalhadores a quem competirá negociar. Esta capacidade era exclusiva dos Sindicato, até agora.

Esta foi uma questão que em Portugal, onde até as bandeiras nacionais para as manifestações desportivas e outras, são feitas na China; onde os castelos viram palácios de mandarim, também há a tentação de tirar o poder negocial aos sindicatos e transferi-lo para as comissões de trabalhadores. Foram beber ao oriente esta tendência. Só se esqueceram que, do lado de cá as comissões de trabalhadores têm outros objectivos a atingir, que não os de natureza sindical. Mesmo assim temos o caso da fábrica de automóveis da Azambuja em que a comissão de trabalhadores virou sindicato de empresa e negociou um acordo colectivo de trabalho.

É óbvio que as comissões de trabalhadores são mais controláveis pelos patrões do que os Sindicatos, por isso incentivam a sua criação e aumento de poder. É demasiado óbvio.

Na China o direito à greve ainda é tabu, mas o Sindicato oficial já defende que mais vale autorizar e regulamentar a greve do que correr o risco de explosões de cólera; é a primeira vez que as autoridades chinesas dão o OK à greve.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) na convenção que escreveu para a Enfermagem de todo o mundo, em 1977 e que o nosso Estado ratificou, dizia que se deviam facilitar as negociações com os sindicatos dos enfermeiros para impedir estas explosões de cólera, na área da saúde, onde o produto do trabalho dos Enfermeiros não é reciclável. O aviso foi feito e plasmado na referida “Convenção” sobre as condições de vida e de trabalho da Enfermagem. Os gerentes da nossa praça nunca leram isto nem muitas coisas. Pensam que lhes basta o poder que lhes vem da nomeação partidária para os cargos, para evitarem a revolta natural e humana, que está sempre latente, em quem foi condenado a comer o pão com o suor do seu rosto.

Ora o pão suado leva ao cansaço e à revolta.

Por isso, aqueles que dizem; por que há-de o governo reconhecer a licenciatura dos Enfermeiros e pagar-lhes o salário compatível se os tem a trabalhar por uma côdea?

Quando se propõem 1020€ para os Enfermeiros iniciarem funções e ao lado os médicos negoceiam 3500€, por muito pacíficos que sejam os obreiros e por muito tiranos que sejam os gerentes, a revolta instala-se e, como a ferrugem, vai minando o ferro, também a cólera vai crescendo nos trabalhadores. Os Enfermeiros são trabalhadores humanos, prontos e aptos a darem todas as lições necessárias àqueles que pensam arranjar o seu salário e respectivos incentivos com a desenfreada exploração que fazem do seu trabalho.

Na China, como em Portugal, compete ao Sindicato congregar esta capacidade de luta e usá-la em benefício das condições de vida e de trabalho de quem tem como rendimento exclusivo o seu salário. É um imperativo acabar com a mão-de-obra barata.

O desmantelamento do SNS, a pretexto da crise e da ingovernabilidade do Sistema tem por trás administradores que fizeram a sua carreira no SNS e começaram por montar balcões de bancos nos hospitais, estão, agora a organizar a abertura da exploração da saúde aos mesmos, que já tinham um pé nos hospitais. Sabemos quem são e onde estão e o que fazem; isto já é meio caminho andado para os vencermos, na hora da revolta justa, merecida e humana.

Mesmo que arrebanhem uns quantos colaboradores dentre os enfermeiros e lhes paguem incentivos para ajudarem a explorar os colegas, de pouco lhes servirá: a uns e aos outros, tal estratagema, na hora da verdade. Também, aqui, o crime não compensa. E a desumanização das empresas, num Estado Social, tipo Sócrates, também não, como veremos…

É preciso acabar com o trabalho mal remunerado e o Sindicato dos Enfermeiros é o caminho seguro para o conseguir. Leva o Sindicato a sério, Colega, que teve a sorte de ler este pequeno texto.

Cordiais Saudações Sindicais,
A Direcção do SE

 
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