| Invejoso eu? |
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| 24-Aug-2010 | |
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Talvez seja preferível dizer nostálgico! O “Público de Sábado 21 de Agosto dizia: «Ordem dos Médicos alerta para os riscos de novo site que dá uma segunda opinião aos doentes». E a notícia continua: «A partir de hoje (21_08_10) um grupo de 150 médicos vai estar disponível para dar uma segunda opinião. E dá como exemplo “um doente que quer confirmar um determinado diagnóstico, ou ter a certeza se deve ou não ser sujeito a uma cirurgia”. «O portal permite que o utilizador, mediante o pagamento de 60 €, enderece perguntas a um dos médicos disponíveis dentro de 78 especialidades, obtendo respostas certas em apenas 72 horas». Mas o «portal segundaopiniaomedica.pt…não é, contudo, visto com bons olhos pela Ordem dos Médicos. O Bastonário Pedro Nunes, disse ao PÚBLICO que não foi informado da existência do site e deixou bem claro “que isto não é medicina, nem pode ser visto como um acto médico; este tipo de negócio não é reconhecido pela Ordem dos Médicos pois não pode haver uma opinião médica sem uma observação do doente, nem que seja através de um interface, como são as videoconferências (ele é que sabe simplificar o que outros querem complicar). O Bastonário lamenta que esta má prática tenha agora chegado a Portugal e alerta para o problema da responsabilidade criminal quando algum doente abandonar um tratamento, etc. etc.». Sobretudo os da morte certa, com dia marcado, da oncologia, onde as decisões de morrer mais cedo, com tratamento, ou mais tarde sem ele, são grupais. Não está em causa o valor da 1ª opinião e o seu complemento com a 2ª. Eles a fazem, eles a desfazem. Seja qual for a ordem, não passam de 2 opiniões. «Opinião em sentido rigoroso, é o juízo cuja verdade não foi ou não pode ser apoditicamente (apodíctico é o que vale de um modo necessário e incondicionado) demonstrada. Baseada em razões apenas prováveis, a adesão que lhe corresponde fica intrinsecamente afectada pelo receio de errar. Parménides parece ter sido o primeiro a distinguir a verdade sólida e perfeita das opiniões falíveis dos mortais que se deixam deslumbrar pelas representações ilusórias dos sentidos. Também os sofistas, reduziram o conhecimento humano a um acervo de opiniões inconsistentes devidas à natureza instável do seu objecto. Deve-se a Platão e Aristóteles uma teoria da opinião, precisando-lhe a natureza e a função característica no processo geral do conhecimento ou gnosiologia. Para Platão, o objecto da opinião propriamente dita é constituído por uma realidade que se situa entre o ser e o não-ser, ou seja, pelo mundo instável e fluente da matéria e do devir. Entre a ciência e a ignorância a opinião caracteriza-se essencialmente por uma génese espontânea, espécie de divinação, (adivinhação) na qual desempenham papel de relevo a sensação e a memória. Como tal abrange toda uma espécie de juízos ou enunciados destituídos de qualquer fundamento científico (Menon, 99c). Para Aristóteles, a opinião compreende, por oposição à ciência, todos os conhecimentos obtidos por via da autoridade ou de razões intrínsecas meramente prováveis. Ambos sustentam, contudo, que, enquanto o conhecimento verdadeiro é sempre acompanhado das razões que necessariamente o justificam, a opinião pode ser determinada pela vontade, pelo sentimento ou pelo instinto. A tradição posterior sublinha o aspecto subjectivo da opinião definindo-a ora como assentimento débil e falaz (para os estóicos), ora como uma proposição susceptível de verdade ou erro (para os epicuristas)». Se juntarmos às legítimas dúvidas do Bastonário da OM o valor subjectivo duma ou 10 opiniões, a capacidade inventiva de doenças (veja-se “os inventores de doenças”), podemos dizer que estamos bem entregues; como diz o povo, no seu filosofar simples; “cada cabeça sua sentença”. Portugal é um país de doenças e de doentes, dizem as estatísticas. O hipocondrismo saudável é uma das mais frequentes. Se estas opiniões secundárias servirem para neutralizar as primárias valeu a pena a ideia, pois pode ajudar a resolver muitos problemas, nomeadamente o das listas de espera vulgarmente classificados de SIGiCS. Porém, numa época onde o consumismo passou a fazer parte das nossas vidas, em que compramos muitas coisas que nem sabemos se vamos precisar delas, porque nem sabemos para que servem, então essa prática aplicada à mania das doenças pode garantir bons rendimentos aos promotores da coisa, dita opinião 2ª. A maneira discreta como a coisa é feita não levanta problemas ao médico mais familiar (MF), pois ninguém gosta que lhe chamem burro, às claras por, não ser capaz de fazer um diagnóstico seguro e consistente, de modo a não deixar dúvidas aos seus “doentes”. Morrer por morrer, sempre é preferível morrer com a certeza do que se tem e do que se sofre, a inventar, como causa de morte a paragem cardio-respiratória ou a indeterminada, ou morrer a rir, a viver na dúvida, de ter uma doença que nem sequer dá direito a baixa, caso não se seja um cidadão dos subsidiados, com direito a voto. Aqui está uma maneira engenhosa de aumentar a necessidade de haver mais médicos, para manterem ou aumentarem os diagnósticos, essa doença moderna, que uns inventam e outros confirmam ou desmentem. A minha nostalgia está em não termos uma Ordem que conteste a falta de condições de trabalho dos seus membros e a insegurança que geram nos doentes e nas doenças, contribuindo para o desemprego ou não emprego dos enfermeiros. Sobretudo porque ainda não chegaram ao subido patamar de uns confirmarem ou desmentirem os erros dos outros. Como não há 2 sem 3, nem Domingo sem missa, nem Segunda-feira sem preguiça, não nos surpreenderá se houver um grupo de opinantes médicos que se aproveite desta situação. Para já a nossa Ordem, com a mania das autonomias complementarizadas, ia permitir que se aplique aos pensos o mesmo critério que se aplicava aos injectáveis; estarem sujeitos a receitas médicas. Vamos ter de criar também as nossas opiniões segundas, nos sindicatos aderentes à ideia, para vermos se conseguimos mais e mais bons empregos para os enfermeiros, usufruindo da fartura de diagnósticos e dos médicos que os geram, tratando-os como doenças, mesmo que isso leve à interrupção da ideia que Sócrates, na sua “Nérica” visão, tem do SNS. Se já batemos o recorde das despesas com a saúde, por que não havemos de ajudar a bater o recorde da criação e tráfego de diagnósticos, entre a 1ª e a 2ª escolha? Como gostava de poder divertir-me como estes brincalhões da saúde. Como não posso nem sei, vivo da nostalgia, pensando num mundo sem doenças nem médicos que as inventem duas vezes; dos que acertam à primeira, graças ao seu olho clínico. Cordiais Saudações Sindicais, |
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